terça-feira, 7 de junho de 2016

Bois



"Só
Com os meus bois,
Os meus bois que mugem e comem o chão,
Os meus bois parados,
De olhos parados,
Chorando,
Olhando...
O boi da minha solidão,
O boi da minha tristeza,
O boi do meu cansaço,
O boi da minha humilhação.
E esta calma, esta canga, esta obediência".


*Poema de Dante Milano e pintura de Rembrandt

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Sete tópicos sobre o segundo governo Dilma (ou O Destino do Oroboro)

A serpente oroboro, símbolo da alquimia:
um governo que se consome aos poucos
1. Dilma chegará a dezembro tendo feito, nesse segundo mandato, um primeiro ano de governo pífio. Quisera eu classificar apenas como medíocre, mas seria desonesto dizer que não foi, no mínimo, muito ruim.
2. Não bastasse a articulação política mambembe (ou por conta dela), seu governo perdeu o peso institucional e, pior, a clareza de agenda. Qual um oroboro precário, só consegue correr atrás do próprio rabo e vai se consumindo aos poucos. Além disso, segue esfarrapando o tecido social que (ainda) lhe resta e insiste em escolhas equivocadas - sobretudo em relação à plataforma de campanha do ano passado. A principal delas, que poderá levar todo o restante de seu mandato para o ralo, a manutenção de Joaquim Levy - um neoliberal cínico, soldadinho do mercado financeiro -, no Ministério da Fazenda.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Memória


Liberto do tacão do dogma,
da guerra e do dízimo,
Deus pode revelar sua
verdadeira face:
a liberdade em todo seu
esplendor e glória.

Deixa então de nos assombrar,
de carecer de sentido.
Embriaga-se, sai à rua.
Vira amigo de mesa de bar,
anjo caído.
Dispensa a fé e seu rapapé.

domingo, 27 de setembro de 2015

Underground: o cinema como avesso do avesso

Underground: a realidade fadada ao fracasso como narrativa racional
Underground, lançado por Emir Kusturica há exatos vinte anos, é, com o perdão da cacofonia, uma meta-alegoria. Se quiséssemos destrinchá-lo em camadas, encontraríamos, unidas em torno de uma metáfora central, uma série de outras metáforas periféricas, uma série de narrativas que foram se cristalizando como mitologia oficial ao longo do século XX. E com as quais Kusturica estabelece um duplo jogo semiótico entre real e ficcional.

É cinema como avesso do avesso; é o fantástico que já não consegue mais – nem quer mais - reconciliar as ordens da realidade e da ficção. A rigor, talvez essa seja, afinal, a essência de todo o cinema: dos filmes mais acanhadamente figurativos aos mais inflexíveis documentários, o cinema é sempre uma alegoria da alegoria, um transfigurativismo que, por meio da linguagem audiovisual, ressimboliza os contornos do real.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Coltrane

Coltrane: som-espaço
Para Ramon Negócio

Coltrane,
esse farejador de fúrias.
Essa síncope-devoção
à procura de Deus. 
E dos deuses sem Ele.

Toda a
Africamérica
germinando em
agudíssimos. 

Jazz de uma 
nota só:
implodir catedrais
e recriar o sagrado.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Caráter

The walking man, de Rodin: um meio em si mesmo

No início, era ainda pele,
arrepios.
Algum torpor.
Mas depois vieram as formigas
por sobre os sapatos.
E, sobre os restos
da ceia na lapela,
outros insetos.
À esquina,
pequenos roedores
atavam-lhe aos joelhos.
Logo, logo

terça-feira, 16 de junho de 2015

Madrugador

"Aurora Boreal", de Michael Creese: o sonho é quando?

Para Antonio José Maia e Ronaldo Salgado

Madrugador,
o olhar acorda.
Escuro de um sobressalto.
Na dúvida,
já é cedo?
Ou ainda é ontem?
Pergunta a
musculatura
retesada.
Ainda é véspera?
Essa noite finda,
reminiscência só,
de si, teimando
em sonhos prescritos.

domingo, 14 de junho de 2015

O fantasma nazista

Na montagem, nazistas na Champs-Elysées, em Paris: ontem e hoje 

por Valton de Miranda Leitão*

O modelo nazista de poder político e soberania nunca desapareceu da cultura ocidental após setenta anos da derrota do regime nazista, na II Guerra Mundial. Os pressupostos do pensamento nazi ficaram embutidos na mentalidade conservadora de setores intelectuais e políticos do ocidente, ressurgindo em muitos momentos deste período e agora reaparecendo com redobrada força em vários países e no Brasil. A intolerância e o preconceito contra as minorias se reagudizaram no nosso País, principalmente após o último pleito eleitoral, e tomaram a forma de um sentimento terrivelmente destrutivo de ódio, cultivado como se cultiva uma planta rara.
O jornalista alemão Timur Vermes, no livro “Ele está de volta”, mostra de maneira ficcional, mas certamente amedrontadora, o ressurgimento da visão nazista de mundo. O tema é tratado como uma comédia, mas nas dobras do humor, encontramos a presença do inimigo político que Carl Schmitt categorizou como presença universal em qualquer processo envolvendo o poder.

domingo, 7 de junho de 2015

Prefeitura quer rasgar o Plano Diretor

Vista aérea de Fortaleza: em aceno ao mercado
imobiliário, prefeitura quer acabar com as ZEIS

Diga-me pra quem governas e eu te direi quem és; e, em certos casos, também quem são teus fiadores. Enquanto Fortaleza amarga uma crise sem precedentes nas chamadas áreas sociais do governo municipal (educação, habitação e, principalmente, saúde), bem como um grave retrocesso nas políticas de assistência social do município (vide a desconstrução de equipamentos como os CRAS e os CAPS), a prefeitura, através da Secretaria Municipal de Urbanismo e Meio Ambiente (SEUMA), vai desenvolvendo uma plataforma de leis e intervenções amplamente favoráveis ao mercado imobiliário e construtor, mas extremamente onerosas à democratização e ao controle do uso do solo urbano.
Na surdina, sem discutir com os movimentos sociais nem com a sociedade civil (o que tem sido a regra na gestão de Roberto Claudio), a Seuma pediu um parecer à Procuradoria Geral do Município (PGM) sobre a liberação de construção de imóveis situados nas Zonas Especiais de Interesse Social (ZEIS) do tipo 3. A medida é um sonoro aceno político ao mercado construtor, mas também uma violência contra a essência do Plano Diretor Participativo (PDP), aprovado em 2009.

sábado, 6 de junho de 2015

Wally e Leminski

"Um escritor cujo gabinete se localiza nas dunas do barato...", "O futuro da poesia pode estar em Homero, por exemplo...", "O futuro da poesia é a recuperação de uma barbárie...", "Os poetas são todos profetas...". "Arte não tem nada a ver com entendimento..."
Wally Salomão e Paulo Leminski num encontro antológico sobre poesia, futuro e, claro, anos 80.