Quando desci das caravelas,
trouxe, na saliva bafienta,
reza e vírus.
Matei milhões, madruguei
o holocausto tropical.
No espelhinho ofertado
ao pajé, apresentei-lhe
em gotículas,
o hálito azedo de
minha genealogia
assassina.
Do alto dos meus,
trapos e farrapos,
anunciei-me dono
da terra, dos rios,
das serras e das estrelas,
dos corpos.
O mar bafejava o que era fora;
o sangue marcava
o que era dentro;
e era meu.
Trouxe a boa nova
do ódio e da assombração,
em nome
do pai e da pátria.
Perverti as guerras e
coloquei cordão
de isolamento no carnaval
da mata.
Outras métricas e rimas.
Enjaulei onças, papagaios
e despudores.
E depois embarquei
de novo. Partida e chegada.
Fui exibir, nos salões fedorentos
do reino de Portugal,
aos nobres com pulseirinhas VIP
que saiam nas colunas sociais,
bons burgueses,
essa exótica mercadoria:
o esplendor da vida.
quarta-feira, 28 de agosto de 2019
segunda-feira, 31 de dezembro de 2018
O último dia do Brasil
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| Quadro de Roberto Chichorro: a memória de um país alegre e acolhedor se encerra hoje. |
31 de dezembro de 2018. Hoje é o último dia do Brasil. Nossa história e nossa memória como (projeto de) país acabam aqui. O que virá pela frente é simulacro e ruína. A partir de amanhã, nossos sonhos de uma nação fraterna, alegre, acolhedora e democrática despertam para a pior realidade possível. Silêncio, força e esquecimento. Não haverá mais civilidade nem racionalidade sobre as quais seja possível erguer qualquer coisa. Criança, não verás país algum. Os boçais e os banais venceram. E nos matarão - cultural, política e fisicamente.
domingo, 30 de dezembro de 2018
Os meritocratas contra o mérito
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| "O ignorante olhar", da portuguesa Maria Andresen: a ignorância que há em mim não respeita o conhecimento que há em você |
O avanço da extrema direita em vários locais do mundo, processo que, no Brasil, é representado pela chegada assustadora do precário Bolsonaro ao poder, tem como um de seus principais motores as estratégias de manipulação e contaminação das mídias sociais. Extremamente poderosas e articuladas, elas pautam o cotidiano dos incautos com seus conteúdos atravessados por clichês, ódios e banalidades. Sempre mobilizando seus afetos contra os "inimigos" de plantão e reduzindo discussões complexas às soluções "lacradoras" de memes e postagens compartilhados alucinadamente em grupos de família, amigos e trabalho.
domingo, 2 de setembro de 2018
Terceirização: adeus ao valor social do trabalho
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| Com decisão do STF, empresas passam a ser meras gestoras do lucro (mais até do que da produção) |
Os efeitos da terceirização ampla geral e irrestrita - aprovada a toque de caixa pelo STF após o regalo dos tais 16% - serão assustadores sobre o mundo do trabalho no Brasil. Não apenas na concretude da nova legislação que se impõe a partir de agora (precarização, insegurança, etc), mas por uma violenta mudança de paradigma: o lucro passa a ter uma despudorada e irresponsável prioridade sobre o valor social do trabalho em nossa sociedade.
Não há capitalismo bom, é fato. A desigualdade e exploração estão na base do sistema econômico. Entretanto, sociedades avançadas e desenvolvidas conseguiram conciliar a sanha pelo lucro com robustos sistemas de amparo social e redistribuição de renda, oferecendo níveis razoáveis de qualidade de vida às suas populações. Com a terceirização adotada no Brasil, as empresas, a partir de agora, serão apenas unidades gestoras do lucro (mais até do que da produção), escapando ao horizonte da prática empresarial, de uma vez por todas, quaisquer laços sociais ou valores de outra natureza que não seja o dos proventos financeiros.
Esse cenário vai adoecer ainda mais profundamente uma sociedade já tão desigual quanto a brasileira. A decisão do STF, mais do que apreciar o mérito da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 324 e o Recurso Extraordinário (RE) 958252, afirma em alto e bom som: o único regulador para qualquer projeto de sociedade que se queira no País será única e exclusivamente o lucro.
Por ora, a terceirização das chamadas "atividades-fim" não atinge o serviço público. Mas, em breve, isso será pautado pelos donos do lucro no País, que também continuarão avançando sobre todos os demais fundamentos de proteção coletiva previstos na CF. O futuro nunca nos foi tão sombrio...
Não há capitalismo bom, é fato. A desigualdade e exploração estão na base do sistema econômico. Entretanto, sociedades avançadas e desenvolvidas conseguiram conciliar a sanha pelo lucro com robustos sistemas de amparo social e redistribuição de renda, oferecendo níveis razoáveis de qualidade de vida às suas populações. Com a terceirização adotada no Brasil, as empresas, a partir de agora, serão apenas unidades gestoras do lucro (mais até do que da produção), escapando ao horizonte da prática empresarial, de uma vez por todas, quaisquer laços sociais ou valores de outra natureza que não seja o dos proventos financeiros.
Esse cenário vai adoecer ainda mais profundamente uma sociedade já tão desigual quanto a brasileira. A decisão do STF, mais do que apreciar o mérito da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 324 e o Recurso Extraordinário (RE) 958252, afirma em alto e bom som: o único regulador para qualquer projeto de sociedade que se queira no País será única e exclusivamente o lucro.
Por ora, a terceirização das chamadas "atividades-fim" não atinge o serviço público. Mas, em breve, isso será pautado pelos donos do lucro no País, que também continuarão avançando sobre todos os demais fundamentos de proteção coletiva previstos na CF. O futuro nunca nos foi tão sombrio...
sexta-feira, 10 de agosto de 2018
Assistência social: Fortaleza é a segunda capital que menos investe em crianças e adolescentes
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| Meninos em situação de rua em Fortaleza: orçamento público é o coração das nossas trevas |
A denúncia do Centro de Defesa da Criança e do Adolescentes (Cedeca) é gravíssima. Fortaleza é a segunda capital do Nordeste que menos destinou investimentos para a assistência social de crianças e adolescentes em 2017. Salvador, no topo do ranking, executou R$37,54 per capita no mesmo período. A capital cearense destinou ínfimos R$1,60 para cada criança e adolescente. São aproximadamente 628 mil pessoas (até 17 anos), em que mal se investiu R$1 milhão em políticas de assistência social ao longo de todo o ano. Nessa seara, só não estamos pior do que Teresina.
quarta-feira, 8 de agosto de 2018
A "praga" de farmácias e a cidade adoecida
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| Pintura de Ernest Descals: o novo não-lugar preferido dos fortalezenses |
Em Fortaleza, noves fora as vendas de açaí, as farmácias são o principal denominador comum de uma paisagem urbana entristecida, suja, adoecida. Esquina sim, esquina não, pululam numa assepsia obtusa centenas de unidades farmacêuticas em meio às nossas patogenias citadinas.
domingo, 22 de julho de 2018
Pesquisadores denunciam "catástrofe" na saúde com Temer
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| Sucateamento do SUS e privatização estão no centro da "catástrofe" brasileira, denuncia estudo |
"O governo brasileiro está retrocedendo em relação à universalização dos serviços de saúde, mesmo isso sendo um direito constitucional", diz o texto. "As políticas neoliberais na área de saúde, combinadas com a desregulamentação das leis trabalhistas e a severa crise econômica, estão não apenas trabalhando contra a ideia de justiça social, mas também exacerbando as duas principais preocupações na área de saúde pública: a desigualdade socioeconômica e socioespacial e as altas taxas de homicídio".
quinta-feira, 16 de junho de 2016
Rimbaud canta o Brasil

Em "Paris Repovoada", poema escrito logo após a Comuna de 1871, Rimbaud descreve o restabelecimento da vida burguesa parisiense após os 70 dias de uma "república proletária" na França, dizimada num dos maiores massacres da história.
Por aqui, o ciclo do PT no governo central esteve longe de nos tornar um imenso Quartier Latin dos tempos dos communards. Foi, a rigor, um governo majoritariamente liberal na economia (com pontuais mas decisivas intervenções do estado) e, com alguma boa vontade, de centro-esquerda na ideologia. Entretanto, demarcou um breve mas importante ciclo progressista e de conquistas de direitos que, apesar de inferior às promessas e expectativas de justiça social que trazia em suas bandeiras pré-2002, foi o suficiente para levar à histeria as pesadas estruturas conservadoras e reacionárias do País.
terça-feira, 14 de junho de 2016
Se é pecado driblar...
A genialidade de Garrincha consistia no seu anti-drible. Em vez do movimento surpresa, da rota improvável, ele fazia-se herói da previsibilidade. Todos no estádio, a começar por seu marcador, sabiam que aquele cambota arredio, no momento crucial, iria dar o bote decisivo e inapelável: sempre pela direita. Todos estavam cientes que Garrincha, inexorável, iria passar pelo adversário e por quem mais lhe descombinasse o jogo. Sempre pela direita. Nenhuma surpresa no lance, mas nele cabia toda a beleza do mundo.
O camisa 7 imortal do Botafogo era assim. Fazia, com uma pureza diáfana, quase infantil, quase de não saber enganar o próximo, o que o futebol de hoje, entretanto, traz como seu grande vício, seu insuportável embaço. O ludopédio hoje não engana mais ninguém. Vivemos a era do anti-drible programático, da previsibilidade de gestos. Mas tudo como fraude, como a farsa de uma história que se repete.
terça-feira, 7 de junho de 2016
Bois

"Só
Com os meus bois,
Os meus bois que mugem e comem o chão,
Os meus bois parados,
De olhos parados,
Chorando,
Olhando...
O boi da minha solidão,
O boi da minha tristeza,
O boi do meu cansaço,
O boi da minha humilhação.
E esta calma, esta canga, esta obediência".
*Poema de Dante Milano e pintura de Rembrandt
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