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quarta-feira, 27 de maio de 2015

A ditadura da intimidade

Richard Sennett: a cidade como instrumento da vida impessoal 

Quando as estatísticas sociais e econômicas começaram a reverberar a emergência de uma nova classe média ao longo dos governos petistas, resultado da superação de parte importante da pobreza e da extrema pobreza no Brasil, que se mostravam crônicas e inexoráveis durante o horror econômico do governo FHC, muitos analistas alertaram para a emergência simultânea de um modelo de cidadania baseado majoritariamente no consumo. Essa cidadania estava fundada não na afirmação e consolidação de direitos, nem numa transformação estrutural mais profunda do País. Baseava-se apenas na inclusão social, pelo consumo, de milhões de brasileiros.
Isso fez com que os "cidadãos-consumidores", para usar a expressão de Canclini, de todas as classes sociais, desenvolvessem uma visão invertida sobre a política. Em vez de nos estimular a pensar e a se sensibilizar com os dramas nacionais em toda a sua complexidade, forçou, pelo contrário, o pensamento sobre os grandes problemas do País a convergir e a se adaptar aos limites de demandas individuais e estreitas da vida cotidiana. À sensibilidade pública, ao sentimento de construção coletiva de um país, o brasileiro vem exercendo uma retribalização atomizada, vem celebrando a lógica privada, que tenta "resolver" os problemas da esfera pública apenas no âmbito dos interesses e dos contratempos particulares.